a vida é uma dor de estômago

grifo 5

— São apenas duas linhas de versos conhecidos há muito tempo na tradição élfica: 

Três Anéis para os Reis Elfos sob este céu, 

Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,

Nove para Homens Mortais fadados ao eterno sono,

Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

Um Anel para a todos governar,

Um Anel para encontrá-los,

Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los

Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.

Parou, e então disse lentamente, numa voz profunda:

— Este é o Anel-Mestre, o Um Anel para a todos governar. Este é o Um Anel que ele perdeu há muito tempo, o que causou um grande enfraquecimento de seu poder. Ele o deseja muito — mas não deve obtê-lo.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 4

— Não consigo ler as letras de fogo — disse Frodo numa voz trêmula.

— Não — disse Gandalf —, mas eu consigo. Essas letras são élfico, de uma modalidade arcaica, mas a língua é a de Mordor, a qual não vou pronunciar aqui. Mas isto em Língua Comum quer dizer, aproximadamente: Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 3

“Gandalf olhou mais uma vez atentamente para Bilbo, e havia um brilho em seus olhos.

— Eu acho, Bilbo — disse ele baixinho —, que você deveria deixá-lo para trás. Você não quer?

— Bem, quero — e não quero. Agora que chegou a hora, não gosto nem um pouco da ideia de me separar dele. E não vejo por que deveria. Por que você quer que eu faça isso? — perguntou ele, e a sua voz se alterou de um modo estranho. Estava carregada de suspeita e contrariedade. — Você vive me chantageando com meu anel, mas nunca me importunou com as outras coisas que consegui na minha viagem.”

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 2

“Mas Bilbo não tinha terminado. Pegando uma corneta de uma criança ao seu lado, soprou forte três vezes. O barulho silenciou. Eu não vou me demorar muito - gritou ele. Aplausos de toda a platéia. Chamei todos vocês por um Motivo. Alguma coisa no jeito como ele disse isso causou uma certa impressão. Fez-se quase silêncio, e um ou dois Tûks aguçaram os ouvidos.

Na verdade, por Três Motivos! Primeiramente, para dizer a vocês que gosto imensamente de todos, e que onzenta e um anos é um tempo curto demais para viver entre hobbits tão excelentes e admiráveis. Tremenda explosão de aprovação.

Eu não conheço metade de vocês como gostaria; e gosto de menos da metade de vocês a metade do que vocês merecem. Isso foi inesperado e muito difícil. Houve alguns aplausos esparsos, mas a maioria deles estava tentando descobrir se aquilo era um elogio.”

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel

grifo 1

O motivo principal foi o desejo de um contador de histórias de tentar fazer uma história realmente longa, que prendesse a atenção dos leitores, que os divertisse, que os deliciasse e às vezes, quem sabe, os excitasse ou emocionasse profundamente. Como parâmetro eu tinha apenas meus próprios sentimentos a respeito do que seria atraente ou comovente, e para muitos o parâmetro foi inevitavelmente uma falha constante. Algumas pessoas que leram o livro, ou que de qualquer forma fizeram uma crítica dele, acharam-no enfadonho, absurdo ou desprezível; e eu não tenho razões para reclamar, uma vez que tenho opiniões similares a respeito do trabalho dessas pessoas, ou dos tipos de obras que elas evidentemente preferem.

j.r.r. tolkien, O senhor dos anéis: A sociedade do anel, prefácio

make love to me forever

Fica bonito
ler Neruda
e passear por seus ombros;
curvas que
se mais bonitas
seriam mentira.

Quem vigia os vigilantes ou ARE YOU OUT OF YOUR FUCKIN’ MINDS?

Há algum tempo as MMA (Mixed Martial Arts) estão na moda. Anderson “The Spider” Silva, lutador brasileiro, campeão em sua categoria, é o homem a ser batido. Ele é odiado, admirado, copiado e já imobilizou índios na Amazônia em propaganda de bebida à base de açaí. Ele, de acordo com um apresentador na televisão, é o cara. E o mesmo apresentador, todas as vezes que tive a chance de vê-lo e escutá-lo, dizia que tinha criado uma campanha: artes marciais nas escolas brasileiras. Uma matéria como qualquer outra. Eu ria. Não enxergava seriedade naquilo.

Se eu concordo com a bandeira que o apresentador levantava? Acho que sim. Os benefícios que as artes marciais trariam às crianças são inegáveis. Disciplina, concentração, respeito e por aí vai. Sem falar da parte física. Era uma boa campanha. Na verdade eu ria era da falta de carisma do apresentador, ou da sensação de que falar aquilo ali talvez fosse a única parte efetiva da empreitada. Posso estar errado, claro. Mas não pude confirmar nada. Nem sei se o programa ainda existe. Era voltado para o público contaminado pela febre das MMA. Entrevistavam lutadores, aspirantes a lutadores e tudo, com muito heavy metal ao fundo e sangue e orelhas gastas em tatame. Tenho gastura daquelas orelhas. Enfim.

Ontem me lembrei da campanha do tal apresentador quando tive ímpetos de perguntar às pessoas o seguinte:

Você já leu a Constituição da República Federativa do Brasil?

Engana-se quem acha que ler a Constituição é tarefa só para advogados e concurseiros. Pisa na jaca quem escolhe a ignorância em detrimento de qualquer tipo de conhecimento. São tão poucas as vezes que temos a chance de escolher entre uma coisa e outra, por que desperdiçar e optar por ser besta? Você nem precisa decorar a porcaria da carta magna, não é preciso caminhar com a coisa debaixo do braço. Basta ler, sei lá, os princípios fundamentais. Estão lá no início. E dá para ir além. Não custa nada saber o porquê, por exemplo, de votarmos em senadores. Aliás, você já parou para pensar nisso? O que diabos faz um senador? Está lá, em nossa Constituição. Não custa nada saber, até porque as propagandas políticas parecem subentender que o povo já tem muito bem gravado na cabeça o que é um deputado, o que faz um prefeito e quem pode ser Presidente da República. E, de fato, você não faz ideia.

Ontem acabei me lembrando do apresentador e de sua campanha, pois fui ler sobre a PEC 33 e cheguei à conclusão de que seria interessante termos aulas básicas de direito constitucional nas escolas brasileiras.  Oras. Seria uma boa campanha. Quem sabe, talvez com crianças apontando os erros, o brasileiro fosse menos expectador dos shows em Brasília. Não sou especialista, então perdoem a pouca profundidade ou os possíveis erros a partir daqui. Correções serão bem-vindas.

As Propostas de Emenda à Constituição têm como finalidade alterar o texto constitucional, e já estão previstas na própria Constituição. Creio que a ideia seja permitir a fluidez, a evolução das leis de acordo com as demandas da sociedade. Mas, até onde sei, as PEC são coisas complicadas de acontecer, justamente porque vão alterar uma coisa que não é brincadeira. São necessárias análises de comissões, votações em dois turnos em cada Casa do Congresso e mais outros detalhes para que uma emenda ocorra.

O ponto disso tudo é: a Constituição Federal não poder ser reformulada a torto e a direito. Com um raciocínio muito simples você consegue sacar a razão do processo mais trabalhoso: se seu vizinho acha que mulheres não devem dar um pio sobre a vida, não seria espantoso se ele concordasse com alguém que diz que mulheres não devem votar. Não que haja uma PEC sobre isso, mas, meus amigos, se o vizinho de vocês fosse o Presidente da República – que pode propor uma PEC –, o que impediria que ele viesse com a esdrúxula ideia de que mulheres não mais podem ser cidadãs?

Nada.

Ele poderia propor, mas teria que passar por todo o processo. E mesmo que a PEC não fosse barrada logo de cara, alguém teria que se lembrar de que existem cláusulas pétreas, previstas no artigo 60 da Constituição, o mesmo que versa sobre as emendas:

§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:

I - a forma federativa de Estado;

II - o voto direto, secreto, universal e periódico;

III - a separação dos Poderes;

IV - os direitos e garantias individuais.

Ou seja, o seu vizinho, eleito Presidente da República, proporia a idiotice, só que esbarraria nesse ponto petrificado da carta magna. Petrificado justamente para garantir certas coisas entendidas como importantes. Ninguém mexe com o direito ao voto direto, secreto, universal e periódico. Bonitinho assim. Seguro assim, mas se há um grande consenso na vida, ele só pode ser esse: a zoeira não tem limites. Há Propostas de Emenda à Constituição zoadas. A PEC 33, a que fez com que eu me lembrasse do apresentador e da campanha pelas artes marciais nas escolas, é uma delas a meu ver.

Ela foi protocolada em 2011 por um deputado federal, Nazareno Fontelles, do PT do Piauí. Basicamente a PEC 33 quer que algumas decisões do Supremo Tribunal Federal sejam submetidas ao Congresso Nacional. Ela sugere, entre outras coisas, que os seis votos exigidos hoje, de um total de onze ministros do Supremo, são insuficientes para considerar uma lei como inconstitucional. Sugere que nove votos dos onze ministros são necessários. A proposta aconselha também que, mesmo se os nove votos forem atingidos, o Supremo não terá a última voz sobre a admissibilidade de emendas à Constituição, deixando a cargo do Congresso concordar ou não sobre a legalidade da coisa. Oras. “Mas cabe ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição, mãe. E a professora falou que precipuamente significa principalmente”, diria a criança que tem aulas de direito constitucional na escola.

Recomendei ali em cima que as pessoas lessem ao menos os princípios fundamentais, os primeiros quatro artigos da Constituição Federal. O Art. 2º diz da divisão dos Poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário, harmônicos e independentes entre si. Falei também sobre as cláusulas pétreas, e fica bem claro que proposta de emenda que tende a abolir a separação dos poderes está fora de cogitação. Como, então, uma PEC como essa aparece? É como se, por exemplo, um deputado resolvesse protocolar uma PEC que modificasse o inciso I do Art. 5º de:

I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição;

para:

I - homens são iguais em direitos e obrigações nos termos desta Constituição, cabendo à lei complementar definir quais são direitos e obrigações das mulheres;

Aí o Supremo vai e diz que não, que não pode. Direitos e garantias individuais são cláusulas pétreas e tudo. Mas o Supremo não é tão supremo assim mais. É o Congresso quem vai decidir se a própria porcaria que fez é ou não inconstitucional de verdade. E, se discordar do Supremo, convoca um plebiscito.

A PEC 33 é claramente inconstitucional, porque arrebenta com a harmonia dos três poderes. Submete o Judiciário ao Legislativo. Mas o que assusta é que ela passou, e com apoio de deputados, pela Comissão de Constituição e Justiça. Ninguém virou e falou que era inconstitucional. Será que eu, leigo, e todos os Ministros do Supremo, estamos errados ao entender a proposta como zoeira sem limites? E aquela outra PEC sobre capacidade postulatória de Associações Religiosas para propor ação de inconstitucionalidade? E aquela outra que quer ferrar com o poder de investigação do Ministério Público? A zoeira não tem limites, mas espero que ela seja gentilmente convidada a se retirar do Congresso Nacional.

Ler sobre a PEC 33/11 reviveu em minha cabeça o apresentador, fã de Anderson Silva, e sua campanha por artes marciais nas escolas brasileiras. Fez com que eu tivesse vontade de criar uma campanha também: que todas as crianças tivessem aulas básicas de direito constitucional. Respeito, disciplina, concentração e por aí vai com as aulas de artes marciais. Sem falar do trabalho físico. Conhecimento dos direitos e deveres e por aí vai com as aulas básicas de direito constitucional. Seria construir uma sociedade mais do que mera expectadora – porque todo poder emana do povo – mas uma grande vigia dos vigilantes. Utópico demais?

A pergunta Quis custodiet ipsos custodes – quem vigia os vigilantes, numa tradução para o português – é atribuída a Juvenal, poeta romano, em um texto que satirizava homens que colocavam outros homens para guardar a castidade das mulheres. Mas o problema de quem vigiaria os vigilantes apareceu primeiro no livro A República de Platão, há mais de dois mil anos. Seria lugar-comum dizer que o poder mexe com a cabeça das pessoas? É só olhar para a zoeira sem limites entre o Congresso e o Supremo. As palavras de Cersei Lannister nunca pareceram tão acertadas para descrever uma situação:

When you play the game of thrones, you win or you die.

Mas seriam as melhores? Vencer ou morrer politicamente seriam os únicos caminhos?

Tânatos é um peixe de aquário

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É só um quarto. Nem escuro e nem claro. Há uma poltrona velha, um pequeno criado-mudo, parafernalhas que dizem ser meus pulmões e meus rins. E tubos, muitos tubos. Há uma cama também. E eu na cama. Ah, claro. Agora há o aquário com o peixe dourado. Maldito peixe. Maldita ironia.

Quando cheguei aqui as paredes eram verdes e as visitas eram bem mais frequentes. Acho que as paredes ainda são verdes, mas eu, talvez, tenha me tornado mais tedioso com o passar do tempo. Lembro-me do relógio que trouxeram certa vez. Não sei para quê. Saber as horas é meio insuportável deitado nessa cama. Eles achavam que eu não sabia as horas, mas eu sabia. Alguém deve ter percebido que eu sabia, pois não há mais o relógio na parede. Ele ficava bem em frente. Eles achavam que eu nem estava mais ali, mas eu estava. Por isso sabia as horas. Agora, em cima do criado-mudo, bem em frente, há o maldito aquário do peixe dourado. Maldito peixe. Se soubessem a grande ironia que aquele peixe representa, voltariam com o relógio.

***

Sei que é terça-feira por causa de Roberta. Ela sai mais cedo do trabalho nas terças e aproveita para vir aqui dar comida para o peixe. “Cuidou bem do meu amor, senhor peixe? Cuidou?”. Maldito peixe. Aliás, Roberta não é como os que trouxeram o relógio. Ela é linda. Nós queríamos pegar um táxi depois daquela festa. Nós dois não bebíamos. Nós éramos namorados felizes. Se não tivéssemos entrado no carro e preferido ficar olhando para o aquário da casa do João, eu teria perguntado à Roberta se ela também não entendia como chamavam aquele peixe de dourado. Maldito peixe. Ela não teria que vir até aqui dar comida para esse peixe ou olhar com piedade para mim. Se não tivéssemos entrado no carro eu conseguiria fazer perguntas.

É uma grande ironia. Nunca entendi os motivos de chamarem aquele peixe alaranjado de dourado. Minha tia comprou um desses e deu para mim quando eu era menino. Veio em um saquinho plástico cheio d’água. “Ele é laranja, tia. Dourado é o colar da mamãe”. E todos achavam graça da comparação. Eles nem sabiam argumentar a minha pequena grande dúvida. O engraçado é que a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Morreu rápido, por sinal. Eu não cuidava bem dele. Era difícil entender como algo laranja podia ser chamado de dourado. “Melhor que morra”, eu pensava. Que deixasse de existir. Quem sabe, assim, a dúvida também sumiria. Mas a dúvida não se foi quando o peixe morreu. Maldito peixe. E Roberta não deixa de vir às terças dar comida para ele. Antes só comesse nas terças, mas descobri que os outros também o chamam de senhor peixe.

***

Estão falando que meus pulmões e meus rins não precisam mais funcionar. Perdi a noção do tempo.Não sei mais quando é terça-feira, porque Roberta não vem mais. Maldito peixe. Continua ali. Como? Roberta não vem mais. As visitas começaram a ficar frequentes outra vez. Olham para mim como eu olho para o peixe. Alguns me perguntam coisas que não escuto bem. Quero saber de Roberta sobre o dourado do peixe laranja. Roberta não vem mais. Ninguém vem mais de verdade, eu acho.

***

É só um quarto e agora está bem escuro. Não há poltrona, mas mudaram o criado-mudo de lugar. Agora sou eu, a cama, as parafernalhas cansadas, os muitos tubos e o aquário sobre o criado-mudo. Maldito peixe. Ah… e há uma janela. Hoje eu sei que há uma janela. O quarto é bastante escuro e a única fonte de luz escorre para o aquário. Maldito peixe. Ei, espera aí. Eles estão entrando. Estranho. Nem olharam para mim. Geralmente olham para meus rins e pulmões postiços e dizem coisas desinteressantes. E Roberta veio! Mas chora. Um deles está colocando um crucifixo no lugar onde antes ficava o relógio. Roberta chora. Maldito peixe. Estão levando o peixe! Oras, como assim? Trocaram o peixe laranja por um crucifixo fajuto? Nem perguntaram se eu queria reaver a fé que perdi no dia daquela festa pela dúvida que me acompanhava há tempos: por que dourado? Ei. Roberta. Ei, olha pra mim. Isso, chega mais perto. Como podiam chamar aquele peixe de dourado, Roberta? Pare de chorar e responda. Como? Droga. Levaram mesmo o peixe. Ela não escuta, ninguém escuta.

***

Acho que falavam sério sobre desligar meus pulmões e rins. Estão cercando a cama e Roberta chora como chorou no dia que disseram que meu cérebro não recebeu oxigênio suficiente. Ela é linda. Saíram ilesos do capotamento, ela e o João. Dizem que eu eu fiquei todo arrebentado. Aí, durante uma das inúmeras cirurgias, nada de oxigênio para o cérebro. Roberta está chorando copiosamente e levaram o peixe sem ao menos responderem como um peixe laranja pode ser dourado. Ah, não faz diferença. Desliguem logo tudo isso.

todos os cães merecem o céu

Mesmo os sem nome.

Gerenciava uma disputa no último sábado:

- Olha, está quatro a quatro. Ganha quem responder a última pergunta. Quem responder primeiro vai ganhar, ok?

O Doidão e a Gabi concordaram. Pensei um pouco e perguntei:

- Ok. Quem é o homem mais rápido do mundo?

Gabi olhou para baixo e levou o polegar direito até a boca para roer a unha. Parecia tentar lembrar um nome. O Doidão, que estava sentado e com as pernas cruzadas no sofá, levantou e esbugalhou os olhos para gritar:

- O Flash!

Eu ri. Ri e disse que ele tinha ganhado a disputa. Queria escutar Usain Bolt, mas Flash foi ótimo. Muito melhor. Ele estava em êxtase com a vitória. Gabi pedia outra rodada. Aí a campainha tocou e eu não dormi direito por cinco dias.

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a miopia do leviatã

Antes de efetivamente pisar na universidade, antes mesmo de garantir uma vaga para cursar Psicologia, caí na bobagem – ou inocência – de querer ter absoluta certeza do que faria dentro da academia. Eu pensei que nada soaria mais correto do que planejar a trajetória, escolher qual linha estudaria com afinco e coisas do tipo. Talvez até tenha pensado em ser um nome memorável da área, incomodando freudianos e aquela coisa toda. Uma bobagem inocente, aquela pretensão púbere de revolucionar tudo o que se toca. Mas não consigo descrever a preguiça que senti naquele final de 2006. Senti-me pequeno diante das incontáveis coisas que eu não sabia, das outras tantas que começaria a estudar em Psicologia sem conhecimento prévio e, principalmente, senti-me pequeno diante da desconfiança de que sairia da faculdade sem ouvir falar de outras centenas de assuntos. Paciência. Apesar de tudo o que aprendi durante o curso, no final das contas a preguiça se mostrou uma boa preditora.

Lembro-me que em 2007, ainda tentando ao máximo saber tudo o que havia para saber sobre o curso que escolhera, assisti a uma apresentação de Steven Pinker no TED. Pinker é professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Harvard e no vídeo de aproximadamente vinte minutos ele fala sobre o mito da violência. Ele diz que, ao contrário do que nos é ensinado e martelado quase o tempo todo, a violência não tem aumentado. Apesar de ser comum falarmos que a modernidade nos deixou mais violentos, Pinker brinca e fala que o título provisório da palestra seria “Tudo o que você sabe está errado”. Então ele avisa que vai mostrar evidências de que realmente estamos equivocados sobre isso. Nossos ancestrais eram bem mais violentos do que nós somos hoje, a violência tem diminuído há muito tempo e mais:

We are probably living in the most peaceful time in our species’ existence”.

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os olhos do lambari ou menina linda, eu quero morar na sua rua

Vivemos dias estranhos. Não sei ao certo como começar a escrever sobre isso, mas vivemos dias estranhos. Vou falar sobre meus avós, Eliza Samudio, Brasília, futebol e Charlie Brown Jr. Afinal de contas, vivemos dias estranhos.

Semana passada fui visitar meus avós paternos. Ambos de cama. Meu avô há um bom tempo e com muitas idas e vindas a hospitais na memória. A vovó, de acordo com meu pai – e pude confirmar pelo relato dela –, acabou de cama também porque largou para lá os próprios limites ao se esforçar demais para deixar mais suave, hoje, a vida do cara que há cinquenta e seis anos topou fazer parte da aventura ao lado dela.

Eu disse que fui visitar meus avós paternos, mas não fui sozinho. Minha avó materna também foi. Ela e minha mãe e minha tia e minha prima-irmã também foram. Dona Lia, a vovó materna, apesar de poder levantar da cama para visitar os pais de seus genros – não sei se há nome para pais de genros –, não está distribuindo saúde. Ela não faz mais as coisas que fazia, nem um quarto das coisas que fazia. Está morando aqui em casa e só em alguns momentos vislumbramos aquela mulher independente que passou tanto tempo subindo e descendo ladeiras no Vale do Mucuri. Está muito fraquinha, mas a língua continua a mesma, afiada e geniosa. Dona Lia fica muito feliz quando está com meus outros avós. É bem legal ver os três juntos.

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life, and love and why

Eu não bebo há tempos. E dependendo das primeiras palavras que escolho para dar minhas razões - porque as pessoas querem razões para isso -, conto histórias diferentes. E sejamos francos por alguns instantes: todos contamos histórias diferentes. Tanto para falar do que queremos sobre nós mesmos quanto para falar aos outros sobre terceiros. Somos contadores de histórias. Todos nós. Alguns muito sofríveis, repetitivos; outros incríveis além da conta. Se eu e você somos soberbos ou idiotas, bem, opiniões e choro são livres.

Hoje um moleque de cinco, no máximo seis anos de idade, banguela de dois incisivos superiores, perguntou sobre minha inexistente relação com o álcool. Eu estava sem dormir, porque passara a noite com meu avô no hospital e me preparava para o sono dos justos. Mas vi que seria impossível adormecer ali no sofá. O pequeno estava dando voltas pela sala e lançando olhares de quem queria de verdade muita atenção. Fazer o quê? Gosto de crianças. Gosto quando confirmo várias vezes que tudo para elas é uma pequena grande aventura. Não custava nada escutar uma das novas.

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dreams

Às vezes sonho comigo. Nesses sonhos eu posso ver e falar com aquele espectro de mim mesmo. O que refuta a teoria - se é que há uma teoria - de que não podemos ver nossos rostos nos sonhos. Sei lá. Talvez seja uma coisa um pouco rara, isso eu posso aceitar. Mas podemos sim. Acho que podemos fazer qualquer coisa quando sonhamos.

Há uma outra teoria - se é que há uma teoria - de que só podemos ver coisas que já vimos quando sonhamos. Bem, então ela também refuta a supracitada, porque todos nós vemos nossos reflexos em espelhos. Todavia também não gosto muito dessa, porque nunca vi muita coisa que já sonhei. Posso ter imaginado essas coisas, isso eu posso aceitar com algum esforço.

Hoje tive um desses sonhos. Hoje sonhei comigo mesmo. Estávamos, eu e eu, sentados em cadeiras que talvez tenhamos visto em filmes sobre o Brasil colonial. A sala parecia-se bem com salas que aparecem em filmes sobre o Brasil colonial. Talvez um gabinete, talvez alguns quadros ou uma escrivaninha. Um tapete verde-esmeralda velho sob nossos pés. As cadeiras dispostas de maneira que não nos encarássemos, mas que dessem a impressão de que falar sobre coisas importantes seria necessariamente a única coisa a se fazer. Vestíamos ternos ingleses cinzas, mas ele, o espectro, tinha um lenço vermelho estiloso que eu não tinha colocado em um dos bolsos do casaco. Também usávamos coletes. Estávamos elegantes.

Um silêncio pesado no ar. Parecia que ponderávamos várias coisas, ou pelo menos eu também devia estar ponderando. Então o espectro olhou para mim e quase não suportei a agudeza daquele olhar. Não tínhamos os mesmos olhos.

- Todos têm um projeto, Marcos - disse o espectro, quando quase desviei meus olhos - Eu tenho preguiça. E você?

Aí eu acordei com o Nada latindo.

how to get her back

Procura-se Clarice

- Eu sempre tive medo de reticências – diz, pegando um dos pedaços de madeira que o tio largou para trás. - Medo de não saber usá-las. Medo de não entender o que elas significam.

- Eu é que não estou entendendo – responde o amigo. – Do que diabos você está falando?

- Reticências – diz com calma, enquanto desfaz o pequeno pedaço de madeira entre os dedos.

- Você é muito assim. Olhe em volta. O mundo está caindo e reticências são as suas únicas preocupações – e procura os cigarros no bolso. – Há merdas maiores acontecendo em sua vida, em nossas vidas, aliás, do que medos imbecis. Do que qualquer coisa que seu tio possa ter enfiado na cabeça – e os cigarros caem no chão.

- Eu sei, eu sei – fala com a mesma calma. – Mas não é incômodo?

- O quê? – pergunta enquanto se abaixa para pegar os dois cigarros amassados. – Cadê o isqueiro?

- Em seu bolso de trás. Ou o tio levou.

- Merda – e apalpa todos os bolsos com impaciência. – O que é incômodo?

- Tudo o que fica inacabado. Todas as idéias, todos os planos, todos os… – e pára para olhar as folhas batendo na janela.

- É. Isso foi uma idéia inacabada e realmente – frisa – está me incomodando. Cara. Vamos atrás do seu tio. Eu preciso do meu isqueiro – fala e começa a caminhar para fora da garagem.

***

- Eu nunca pensei que bagunçaria com tudo – diz depois de alguns minutos de caminhada em silêncio enquanto o amigo, nervoso, finge que traga o cigarro apagado.

- A culpa foi sua. Agora nós vamos ter que agüentar a trombada, não é? Seja lá qual for o tamanho do caminhão. E que merda é essa de reticências? – pergunta nervoso.

- Não quero justificar nada, você sabe. Não há como justificar. E nem seria com você que eu teria a obrigação de justificar alguma coisa. Só quero que essas cordas em meu estômago parem de girar – e coloca a mão na barriga. – Só quero que as pessoas entendam o que nós fizemos.

- Cara – repentinamente pára de andar. – Nem eu entendo. Há como entender?

- Não – responde, parando também de caminhar. – Mas se houvesse a chance, com certeza eu…

- Chance!? – interrompe. – Que chance? Nós estamos muito ferrados, cara. E você vem me falar de reticências e de chance? – e recomeça a andar mais depressa.

- Meu tio falou que tudo ficaria bem se ficássemos na garagem – e corre para alcançar o amigo.

- Aquele maldito levou meu isqueiro. E eu não sei o que ele te disse, mas parece que enfiou muita minhoca na sua cabeça. Nós vamos passar pela loja bem rápido e só pegamos o meu isqueiro. Eu não estou mais ligando para muita coisa. Se for para acontecer na rua, na loja ou na garagem, que aconteça!

- É como eu estava te falando – tenta parecer calmo como antes. - Se pudermos explicar o que aconteceu tudo ficará bem. Para ser honesto, acho que meu tio tem razão. A garagem é mais segura. Seria muita burrice acabarmos mal por conta de um isqueiro.

- Se seu tio não tivesse levado o isqueiro embora, se eu não fumasse, se você não fosse tão ridículo, se eu não estivesse com tanta vontade de esmurrar seu corpo inteiro, tudo ficaria bem! – explode.

- Você disse alguma coisa sobre trombadas e caminhões há alguns minutos e que não tem nada a ver com o que você está falando agora – diz com pesar na voz.

- Mais um bom motivo para você parar de reclamar e buscar o isqueiro comigo. Já não estou falando coisa com coisa de tanto nervosismo. Eu preciso de um cigarro, cara. Nós já estamos ferrados.

***

- Quem é? – pergunta mulher sem olhar para a porta de vidro.

- Sou eu! – grita. – Vim entregar a madeira e conversar com seu marido.

- Ah… – e olha com desprezo. – Ele não está aqui. Pode deixar o que veio entregar aí na calçada mesmo.

- A senhora tem certeza? Não seria mais seguro colocar atrás do balcão? – insiste o homem que esboça um sorriso amarelo.

- Ele não me passou nenhuma instrução sobre madeira ou qualquer coisa.

- Eu acredito que seria o melhor a ser fazer, senhora. Colocar atrás do balcão. Além do mais, eu realmente preciso conversar com o seu marido.

- Não creio que nós temos algo para conversar – diz ríspida e agora olhando diretamente para o homem. – O que aconteceu ontem já diz muito por si só.

- Eu compreendo que a senhora esteja alarmada. Entendo a raiva do seu marido. Ele me ligou hoje cedo, aliás. Pode confiar que ele sabia da entrega e da conversa – e passa a mão na testa para enxugar o suor. – Por favor, senhora. Está um sol de rachar aqui fora.

- Vocês bem que podiam morrer queimados – sussurra enquanto levanta da cadeira para abrir a porta da loja. – Tudo bem. Entre. Pode colocar a madeira ali atrás. Vou pegar um copo d’água para o senhor.

- Agradeço – enquanto faz uma reverência estranha. – Descarrego a entrega em um minuto.

***

- Qual é o endereço dessa loja? – pergunta ainda nervoso.

- Logo ali na esquina. Olha a caminhonete do tio – e aponta para o automóvel vermelho estacionado e carregado com madeira. – Ele deve estar lá tentando fazer o que nós deveríamos estar fazendo.

- Nós? Nós é o cacete! – explode mais uma vez. – A culpa foi sua! A culpa foi sua! Se você me escutasse e seguisse o que eu falei direitinho, nada teria dado errado.

- Vai mais devagar – pede com o máximo de persuasão possível. – Vamos esperar e ver quem está lá com o tio.

- Não seja covarde logo agora. Você falou que odeia reticências! Essa é uma puta reticência. Ou você resolve logo ou vai se odiar pelo resto da vida. Ou pelo menos até a hora que forem nos prender – fala de maneira mordaz.

- Eles não vão nos prender por causa disso. Pára com esse papo.

- Cara – pára novamente de andar, para alívio momentâneo do amigo. – Nós arrombamos a casa do homem mais babaca da cidade! Arrombamento é crime! Se eles nos denunciarem, e ao que tudo indica é o que farão, nós com certeza vamos ser presos. A mulher viu. Viu o seu rosto. Viu o meu rosto, merda! É claro que vamos ser presos!

- Se essa é a intenção deles, por que ainda estamos livres? – indaga com otimismo. Nós passamos a noite na garagem. Eles sabem onde eu moro. Se fossem denunciar, já teriam denunciado. Tenho certeza que eles estão à espera de uma explicação nossa.

- Explicação sua! Só sua! – interrompe novamente.

- Ok, ok – concorda. – Uma explicação minha e o porquê de você também estar envolvido nessa bagunça toda. Eu conheço o homem. Ele não é tão babaca quanto dizem.

- Merda. Merda! – pragueja. – Eu preciso muito de uma cigarro.

***

- Alô?

- Oi. Sou eu.

- Eu sei que é. Cadê você?

- Chegando em sua casa. Pegou as ferramentas?

- Peguei sim. É muito longe daqui?

- Não, não. Dá para ir a pé. Você sabe mesmo fazer isso?

- Na teoria. Já vi fazerem. A gente já conversou sobre isso, cara.

- Eu sei, mas não custa perguntar. Você está quase dando para trás.

- Se eu fosse desistir não seria seu amigo.

- Cara, valeu. Valeu mesmo.

- Só venha com agradecimentos quando conseguir fazer seja lá o que você está querendo fazer. E espero que não seja nada mais ilegal do que arrombar a casa de alguém.

- Não, não é. É só deixar uma coisinha lá. Ninguém vai perceber. É rápido. É importante, você sabe.

- Sei, sei. Você tem certeza que ninguém vai estar lá?

- Tenho. Último Domingo do mês. As noites são sempre na casa dos avós.

- Isso é com certeza absoluta, não é? Eu posso confiar, não é?

- Pode. Pode sim.

- Porque eu te deixo lá, cara! Eu te deixo lá e saio correndo como o demônio corre da cruz se alguma merda acontecer. Se você demorar mais do que dois minutos para sair, cara, eu juro pela minha mãe que eu saio correndo e te deixo lá.

- Muito justo, muito justo. Mas eu não vou demorar. Estou na sua porta. Abre aí.

- Não. Você está maluco? Meus pais não podem ver que estou saindo. Vou sair calado e voltar mudo.

- Ok. Ok. Estou te esperando.

***

- O seu marido demora? – pergunta o homem depois do último gole.

- Ele não falou nada. Mas pode deixar que ligo agora mesmo para avisar quem está aqui – e caminha em direção ao telefone do balcão.

- Tudo bem! Vamos resolver isso, com certeza! – fala animado. – Eu vou começar a descarregar a madeira.

***

- Oi, sou eu. O carpinteiro está aqui. Não. Não. Está só. – e olha para o homem que atravessa a porta com as grandes tábuas. – Ele está descarregando a madeira que você comprou semana passada. Isso. O quê? Não. Já falei que é só ele. Dá para você chegar aqui rápido? Quem? Você está brincando comigo. É claro que não é para trazer! O que teria para acrescentar? Vai que aqueles bandidos – e sussurra após uma pausa. – Vai que aqueles bandidos aparecem aqui também. Não custa! – e volta a falar no mesmo tom ríspido. – Sou contra! Completamente contra. O quê? Olha, faz o que você quiser. Eu sei o que eu vi e você viu o estado da porta. Eles prenderam o cachorro na despensa, meu Jesus! Venha para cá depressa! – e desliga o telefone com uma batida violenta.

***

- Vamos logo – fala já sentindo o cheiro da madeira em cima da caminhonete.

- Calma, vamos esperar o tio sair de novo.

- Minha calma acabou ontem, cara. Vamos – e puxa a última tábua. – Me ajuda aqui.

- Mas que merda… – e ajuda o amigo, já que não tem escolha.

- Vamos entrar e não importa o que aconteça lá dentro, você vai manter a calma e deixar só o seu tio falar, ok? – diz pausadamente. – Talvez assim tenhamos alguma chance de convencê-los a não chamar a polícia logo de cara. Aí tudo se resolve, eu pego meu isqueiro e voltamos para casa.

- Ok – e atravessam a porta carregando a tábua que agora pesava mais do que realmente pesava.

***

- É ali – diz mais baixo do que gostaria.

- O quê?

- É ali. Naquela casa com a árvore pequena na frente.

- Você não me falou que íamos pular um muro.

- Não vai ter problema. Eu já pulei.

- Eu estou carregando um bocado de coisas barulhentas aqui, oras!

- Eu pulo primeiro, aí você joga a caixa com as ferramentas. Depois você pula.

- Alguém pode escutar se essas coisas caírem no chão, cara.

- Não vão cair. Confia em mim. Vamos rápido.

- Como você pulou isso? – diz ao pararem perto do início do muro e da árvore pequena.

- Em algum lugar aqui tem como segurar. É perfeito para subir.

- Então anda logo e trepa nesse muro, caramba. Eu estou escutando carros na outra rua.

- Calma – e num movimento rápido sobe quase que a metade.

- Eu não vou conseguir fazer isso que você fez – diz enquanto vê o amigo pular para o outro lado.

- Vai. Joga! – diz muito baixo novamente.

- Merda. Cadê você? – pergunta assustado.

- Joga as ferramentas!

- Que merda! Não me assusta assim! – fala com indignação ao jogar as ferramentas com o máximo de cuidado possível.

- Peguei! Perfeito! Agora vem depressa!

- Merda, merda. Isso vai dar errado. – diz enquanto tenta imitar os movimentos anteriores do amigo.

***

- Eu não acredito que vocês têm a audácia de entrar em minha loja! – grita a mulher. – Eu vou ligar agora para a polícia! O tio de vocês tudo bem, coitado! Não tem culpa das estripulias dos dois, mas bandido aqui não entra!

- Ele não é meu tio. É só dele – diz enquanto coloca a tábua no chão com o amigo.

- Calma, minha senhora – clama o tio enxugando mais uma vez a testa ensopada com a palma da mão. – Eu falei para eles ficarem em casa enquanto eu resolvia tudo com o seu marido.

- Calma? Calma? Esses dois bandidos invadiram a minha casa! – berra a mulher no momento em que tira o telefone do gancho pela segunda vez desde que o carpinteiro chegou.

- Sei que o que eles fizeram foi muito, mas muito errado. Mas eu sei também que… o que é isso? – pergunta o tio ao sentir uma mão em seu bolso direito da calça.

- Meu isqueiro. Só vim aqui pegar o meu maldito isqueiro – diz ao alcançar o isqueiro e levá-lo em direção ao cigarro na boca.

- Cara – fala o amigo com dificuldade. – Você não está ajudando.

- Ajuda alguma nesse mundo vai ser suficiente para vocês – e direciona o olhar para o que acabara de falar. – Muito me impressiona você, logo você! Eu te recebi em minha casa! Quantas vezes? Eu nem sei! E é assim que você retribui? – e bate o telefone novamente com violência no gancho sem ter discado nada.

- Não, não – gagueja o rapaz. – Claro que não. Se a senhora deixar que eu explique…

- Cala a boca, merda! Deixa só o seu tio falar! – grita o amigo.

- Olha como fala aqui dentro da minha loja, moleque! – e avança para cima dos dois rapazes, sendo impedida pelo tio que suava em bicas.

- Minha senhora, fique calma! – clama novamente o tio.

- Meu marido está vindo! Eu quero ver o que vocês vão fazer! Eu quero ver!

- Merda – dizem os dois amigos, quase em uníssono.

***

- Pela porta dos fundos não vai dar. Vai pela porta da frente mesmo. É rápido.

- Como assim não vai dar?

- Tem uma parede muito alta para se chegar até os fundos. Eu sei que, se eu for pela porta da frente, o caminho dentro da casa é livre até o segundo andar.

- Cara. Tá. Tá. Vamos rápido. Espera! – e pára subitamente de andar pelo jardim escuro. – Que barulho é esse?

- Merda. É o cachorro! Está dentro da casa!

- Quem deixa um cachorro dentro de casa quando sai? Que merda! E você não falou nada sobre cachorros, cara!

- Eu não me lembrava de cachorro! É coisa recente! – começa a se desesperar.

- Ele é grande? É pequeno?

- É um filhote ainda, mas vai fazer muito barulho se nos encontrar!

- Mas que porcaria, cara. Vamos embora. Vamos embora agora!

- Agora não dá para voltar. Nós vamos nos arrepender se voltarmos agora – diz mais calmo. – Entramos e prendemos o cachorro na despensa. Lá ele não vai chamar a atenção dos vizinhos.

- Eu me arrepender depois? Eu já me arrependi desde a hora que pulei o muro e descobri que aqui tem um cachorro!

- Calma, calma – diz o amigo.

- Eu estou calmo. Você não me viu nervoso ainda. Passa as ferramentas então. – e acende um cigarro.

***

- Foram eles, Cláudio! – acusa a mulher ao ver o marido chegando. – Foram esses dois, eu te disse!

- Senhor Cláudio – diz o tio. – Eu não estou conseguindo com que a sua mulher mantenha a calma!

- Eu não vou ficar calma! – retruca a senhora. – Dois bandidos invadem a minha casa, entram em minha loja horas depois e eu tenho que manter a calma? Eu não sei o que foram fazer lá, mas com certeza esse aí já estava de olho em alguma coisa há tempos! Aproveitou que saímos para poder entrar e roubar! Ladrão! Judas!

- Minha senhora – diz o tio. – Há uma explicação para tudo isso. Senhor Cláudio…

- Hum – resmunga Cláudio.

- Merda, merda – fala para si mesmo o rapaz com o cigarro na boca

- Cláudio, senhor… – tenta iniciar o outro rapaz.

***

- Cadê você, cadê você? Eu falei que ia sair correndo. – e anda de um lado para o outro perto da porta da despensa. – Maldito. Que merda de embrulho era aquele? Olha as horas! Olha essa porcaria de cachorro latindo…  – e vira-se rapidamente ao escutar o ranger do portão. – Merda!

- Deu merda, deu merda. Vamos embora! – grita o amigo que descera as escadas logo que o carro entrou na casa.

- Como a vamos sair daqui? Olha a zona que deixamos! Você falou que eles não voltariam tão cedo! – e tenta juntar as ferramentas que estão no chão junto com a maçaneta da porta.

- Cara! Larga isso! Vamos sair antes que eles dêem a volta! – e corre em direção à porta que está escancarada e completamente visível pela luz que é acessa no jardim.

- Por aí não! Por aí não, merda! Vamos nos esconder! – tenta impedir sem sucesso o amigo que saíra correndo para o jardim.

- O que é isso? – grita de horror uma mulher. – O que você está fazendo aqui? Eu vou chamar a polícia!

- Me desculpe, dona Alexandra! Eu, eu… – gagueja o garoto que ainda se dirige para o muro.

- Pula, pula logo! – grita o outro que passa correndo e quase derruba a mulher.

- Meu Deus! O que é isso? – berra transtornada. – Eu sei quem vocês são! Eu vou ligar para o Cláudio e para a Clarice! Bandidos! Ladrões!

- Merda! Corre, cara! Corre! Vamos para casa do seu tio – fala com apreensão o rapaz que pulou por último. – Nós estamos perdidos!

***

- Tio, tio! – bate na porta um garoto que arfa.

- O que foi? O que aconteceu? – responde uma voz fraca e sonolenta do lado de dentro.

- Nós fizemos uma coisa muito, mas muito estúpida – fala com ar de confissão um dos rapazes.

- O que foi, meu filho? – abre a porta o homem que há pouco dormia. – O que aconteceu?

- Nós acabamos de arrombar a casa da Clarice e a madrasta nos pegou – responde o amigo que acende o quinto cigarro em menos de meia hora. – Nós estamos ferrados.

***

- Cláudio, senhor… – tenta iniciar o rapaz.

- Explique-se – diz Cláudio, o pai de Clarice, de forma calma e inesperada para todos.

- Senhor Cláudio… – começa a dizer o tio.

- Sebastião, por favor – fala com autoridade um Cláudio sereno e decidido. – Deixe que o rapaz diga o que quer dizer. Eu vim aqui para conversar com você, mas já que o rapaz está aqui e quer falar, deixe que ele mesmo fale.

- Você ainda quer escutar o que esse ladrão vai inventar? – pergunta indignada Alexandra. – Diga para ele como Clarice ficou quando você contou a ela do ocorrido, Cláudio! Vamos! Diga!

- Alexandra, por favor. Busque sua enteada no carro – diz Cláudio. – Acho que ela vai querer escutar o que o garoto tem a dizer.

- Como!? – fica sem entender a mulher.

- Por favor, Alexandra – reforça o pai da moça.

- Mas que merda é essa… – pensa o amigo com seu cigarro enquanto vê a mulher sair aturdida pela porta de vidro.

- Vamos. Explique-se – repete Cláudio.

- Bem, senhor. Não roubei nada, senhor. Mas peço desculpas por mim e por meu amigo pelo estrago que causamos e pelo transtorno – diz de forma trêmula, mas sem gaguejar. – Eu sempre tive medo de reticências, senhor – começa a dizer sem reparar que Clarice entra na loja, carregando um livro que encontrara em seu quarto pela manhã. – E isso tudo, tudo o que eu estava vivendo, era uma imensa reticência.

- Uma grande o quê? – indaga-se em pensamento a madrasta de Clarice que vem logo atrás da moça.

- Uma grande reticência, senhor – continua a falar com confiança, olhando agora para os olhos da garota que atravessa a loja e pára ao lado do tio e do amigo. – Ontem eu faria um ano de namoro com sua filha se eu não fosse uma pessoa tão orgulhosa e idiota. Um ano, senhor, você sabe. Então eu quis, de qualquer modo, entregar uma coisa que prometi a ela há muito tempo e cumprir outra promessa, não tão velha assim, de procurar Clarice quando meu orgulho e minha idiotice chegassem ao fim. Pois bem – fala ainda mais confiante ao ver o livro nas mãos da garota. – Não quero uma reticência dessas. Não sei usá-la. Não sei. Minha idiotice chegou ao fim. Encontrei a Clarice que havia perdido.

first summer

Acorda, meu bem,
acorda.
Porque eu adivinhei
tudo.
Tudo o que você dirá
quando nossas bodas,
as de ouro,
já estiverem nas fotos.