Hoje olhei para todas as curvas,
cores e bocas.
O quase palpável,
pelo quase,
me fez sentir inveja de deus.
maio 6th, 2012 § 0 comments § permalink
Hoje olhei para todas as curvas,
cores e bocas.
O quase palpável,
pelo quase,
me fez sentir inveja de deus.
abril 8th, 2012 § 1 comment § permalink
Tudo se quebra
quando Aline se vê.
Tudo se transforma quando ele vem.
Ele vem, sem avisar, sem olhar, sem notar
que tudo se quebra
quando Aline se vê.
Do balcão
do botequim,
do balcão Aline se vê:
nos reflexos tortuosos
entre os mimos para quem vem.
Tudo se quebra
quando ele não vem.
O sol da meia-noite,
do balcão,
Aline vê.
Aline espera e Aline quebra.
Ele não vem e não veio.
Aline também não sabe se virá.
O frio da meia-noite,
no balcão,
Aline sente e compartilha
os pingos d’água salgados.
Aline quebra e ele não vem.
Aline chora, chora
No balcão.
Aline vê outro sol
e não sabe se é dia ou noite.
Do balcão Aline reflete
e retoca. Ele vem. Ele vem.
Mas Aline quebra.
Muita gente vê Aline
do outro lado do balcão.
É um botequim, e todo mundo a vê.
Aline quebra sem parar.
Tudo quebra.
E se ele vem?
Aline se vê no espelho,
sóis da meia-noite:
nada se quebra
se ele vem.
Aline respira
no balcão
ou não respira
se ele vem.
Amor se quebra.
Um quarto de qualquer coisa
e ele não nota que Aline se quebra
toda e toda vez que ele dá as costas,
moedas, notas,
pega um sol, um frio
e vai embora.
Tudo se quebra
quando Aline se vê.
Tudo se transforma quando ele vem.
Ele vem, sem avisar, sem olhar, sem notar
que tudo se quebra
quando Aline se vê.
março 24th, 2012 § 1 comment § permalink
Acordo em diagonal
numa cama sem lençol.
Na boca menta e sal
da pele de quem nem
prepara o meu café.
Não há, eu sei,
mas vou correr e procurar
o espelho com o seu
recado a batom.
Sem cesta com mamão.
Só o chiado da TV
e não preciso nem dizer:
na rua vão falar de mim.
Lá fora seus olhos
fingem não me ver.
Eu sei.
Brincar de ser livre e voar
é mais leve do que meu lugar.
Porque saudade é juntar
suas cinzas de cigarro
domingo de manhã.
março 3rd, 2012 § 2 comments § permalink
Sinto
pela areia
e nós em joelhos
alheios.
Pela balbúrdia
que fazem eles,
os amargos.
Sobrancelhas,
dó e arreios
é o que ofereço
aos seguidores
das regras.
Eles,
os amargos.
Sinto
pela falta
de tato nos pés
medrosos.
Pela comodidade bege
que fazem deles:
os amargos.
Ah!
O dom de ser bobo!
Sei.
Este é o dom
que despreocupa.
Pai daquele belo
grilhão
bem maior que tornozelos.
Sinto
pela mão e pés
atados,
pelo esforço
de viver.
Deles: os amargos.
fevereiro 24th, 2012 § 1 comment § permalink
O ritual do banho foi seguido rigorosamente. Às 19 em ponto B. aproveitou o espelho embaçado para desenhar algo que, em seu íntimo, classificou como uma caricatura da moça que estava a caminho. Corrigiu o tamanho de uma sobrancelha. Sorriu. Apertou a toalha vermelha à cintura e se preparou para aquela pequena delícia que é abrir a porta de um banheiro baforento e deixar o ar gelado do exterior cortar o peito.
B. se acha bastante bonito após seus banhos. O caminho do banheiro até o quarto é curto, mas ele aproveita cada milímetro para dirigir pequenas cenas dignas de Almodóvar: porque desfilar o tronco nu cheio de gotículas d’água refletindo todas as fontes de luz da casa, enquanto uma mão evita que a toalha caia e a outra seca os cabelos, é praticamente saber que a Penélope Cruz está esperando na cama. Boa cena. Talvez uma das melhores dos últimos tempos.
Às 19 e 15 foi o combinado. Sorriu, apesar de saber que nunca será cumprido, claro.
A campanhia tocou. B. acabara de partir o cabelo e, de novo, se lembrou que a imagem que vê no espelho não é a mesma que as pessoas enxergavam dele mesmo. Partir o cabelo para aquele lado é a melhor opção? Afinal, como saber? A campainha tocou de novo com um quê de impaciência. Ele apressou o passo, ajeitou a gola da camisa e destrancou a porta que dava para a sala de estar.
- Olá. – disse B., dando espaço para que a moça passasse e assim poder sentir qual perfume ela escolhera para a noite. Errou o palpite.
Ela andou um pouco pelo cômodo e jogou a bolsa na velha poltrona. B. trancou a porta novamente, girou nos calcanhares e sorriu pela terceira vez. Aí aconteceu. Antes que ele pudesse oferecer algo ou dizer as amenidades de sempre. A moça se aproximou com aquele olhar de classificação difícil e parou a um palmo de seu nariz. Um beijo? Já? B. fechou os olhos quase que por protocolo.
Com palmadinhas leves e eficientes a moça inverteu o lado que B. havia partido o cabelo.
- Agora sim, bem melhor. – disse a moça, ainda tilintando as pulseiras douradas à altura dos olhos de B. – O banheiro é ali?
Ela saiu pelo corredor lateral, onde as câmeras de Almodóvar sempre estavam instaladas, e B. ouviu a torneira da pia se abrir. Ficou ali, estático. Abriu os olhos bem lentamente e, às 19 e 23, pensou:
- Merda.
fevereiro 14th, 2012 § 3 comments § permalink
Há três coisas
boninas:
sangue coagulando,
bochechas extasiadas
e recados a batom
em espelhos
pela manhã.
janeiro 29th, 2012 § 1 comment § permalink
As horas
que passam
e eu sem saber
das horas
que passam.
Das letras
que morrem
e eu sem saber
das horas que passam.
Dos olhos
que dormem,
das dobras que fazem
e eu sem saber
do céu laranja,
dos dois arco-íris
e das horas que passam.
janeiro 6th, 2012 § 1 comment § permalink
Há uma distância – três centímetros – entre o que a sua vida é e o que ela poderia ter sido.
O deserto dos tártaros, do italiano Dino Buzzati, foi um dos melhores livros que li nos últimos tempos e fala de um viscoso e perpétuo mecanismo que acaba por nos engolir se ignorarmos a possibilidade dos tais três centímetros. É um mecanismo quase perfeito.
A edição que meu pai esqueceu em minhas mãos tem a apresentação de Ugo Giorgetti. O cineasta diz:
“O que nos conta O deserto dos tártaros? Um jovem militar é designado para servir numa fortaleza nas montanhas, solitária, quase esquecida, que em tempos remotos foi importante defesa contra os tártaros, que costumavam chegar pelo deserto que se estendia ao longo do vale. Nesse lugar isolado, fincado entre altas escarpas, a função de todos era estar preparado para o dia em que os tártaros voltassem”.
O negócio é que o jovem vai para esse forte e o tempo passa e os tártaros não vêm. Sua vida inteira passa e ele manteve os olhos no horizonte esperando. Pessoas morrem, pessoas vão embora, pessoas novas chegam ao forte e ele continua esmiuçando o encontro do céu com a terra. Giorgetti diz que o livro fala da vida como uma aposta na imobilidade.
Se pudéssemos assistir ao que acontece aqui, ali e em qualquer outro lugar do planeta veríamos que tudo tende a essa imobilidade. Há sempre promessas de algo melhor depois, algo mais bonito amanhã. Dê tudo de si hoje, seja concessivo agora e amanhã, ah! Amanhã… Podemos ser uma péssima pessoa hoje, não importa; pois há a imobilidade da promessa de um dia melhor depois.
Estamos todos em um forte esquecido na Itália, com um binóculo em uma das mãos e um fuzil esperançoso na outra. E os tártaros nunca vêm. A não ser que façamos valer a imperfeição do mecanismo viscoso e perpétuo, claro. Você pode escolher ser só mais um que usa de palavras duras com pessoas que não merecem escutá-las – porque, sei lá, simplesmente pode usá-las – ou pode apenas dar um jeito de ser alguém melhor e não estar do lado arrependido dos três centímetros.
outubro 25th, 2011 § 4 comments § permalink
Aquele momento bizarro onde você percebe que possui um apurado e amplo senso das coisas. É como elevar sua percepção à enésima potência em um segundo, mas você não sabe como lidar com a súbita habilidade. Não há tempo para gravar, aproveitar ou qualquer coisa desse tipo. Vai como veio. O sentido da vida borbulha em cada glândula sudorípara enquanto você escuta vozes e tem premonições sobre mundos paralelos. Ou quase paralelos. E vai como veio. Em um segundo.
Aí o mal-estar.
Você levanta da cadeira ou do sofá. Continua andando ou pára de ler o que estava lendo. Olha em volta para conferir se alguém percebeu ou permanece deitado na cama encarando o teto do quarto. Não importa. Seja lá o que está fazendo, onde está, com quem está. Você se sente mal. Não adianta dizer que teve uma epifania. Você não teve uma epifania. Saramago teve epifanias. Einsten teve epifanias. Você só foi ousado. Só avançou o sinal e não tem idéia de como isso aconteceu ou do porquê. Deus acaba de beijar sua boca e você tentou colocar a língua como quem pergunta: Ah. Por que não?
Claro que é preciso muito radicalismo teológico para dizer de Deus beijando a boca de alguém, quanto mais um beijo francês. Mas tomo a liberdade e o passaporte ao inferno cristão para tentar explicar a bizarrice, a trombada violenta com a megalomania. Você, naquele segundo, compreende as minúcias das más e boas intenções alheias, já que a complexa arquitetura dos fingimentos de gente que você nem mesmo quer ver estão, como nunca estiveram, ao alcance dos dedos.
Não há raiva, se é que deveria existir lugar para tal. Não há maquinações, até mesmo porque você não tem o tempo necessário. Você está acima do bem e do mal, todavia não escapa dessa frustração meio abobada. Chega a ser cômica.
Isso costuma acontecer comigo em Setembro e, pensando nisso agora, alguém poderia indagar: se você sabe quando acontece, pode muito bem se preparar para fazer bom uso do sentido da vida que escorre aos litros. No entanto, como eu já disse, a coisa é ocasional. Costumeiramente acontece em Setembro. Estou falando de probabilidades. É tão difícil saber quando vai acontecer quanto é difícil tentar prever o futuro com déjà vus. Porque eu tenho a imensa certeza de que, se por acaso identificar padrões de um déjà vu – padrões de situações onde eles acontecem, para ser mais específico -, posso perfeitamente descobrir o que fazer para provocar um. Quem sabe controlar o período de sua duração. Rigor científico para aquilo que a própria ciência explica como uma simples “falha de memória”.
Difícil. Demais. Essa idéia com os déjà vus não deve ser muito original. Talvez nem o beijo de língua seja. Só fiz a comparação entre as duas situações para dizer de meus contatos extremamente breves com absurdos de poder. Breves e intermitentes. O último, há pouco mais de um mês.
Foi frustrante como sempre. Cada um de nós tem um 11 de Setembro, um 23 de Setembro, um 29 de Setembro. E que se dane. Que se dane a Primavera com seus pardais aprendendo a voar e mendigando batata frita na porta de McDonald’s. Que se dane a Primavera com seus Domingos quentes e Terças garoando. Que se dane. Que se dane a Primavera e as reconciliações e os coraçõezinhos bregas feitos de cartolina vermelha barata. Que se dane.
***
Fuck me? Oh, no, no, no. Fuck you. That’s what She said.
setembro 2nd, 2011 § 1 comment § permalink
Então pensei que ele estava morto. O rapaz desapareceu do quarto. Estávamos naquele bar de luzes fracas, na rua interessante do bairro Norte. Nosso último encontro seria ali? Eu estava muito sonolento – ou bêbado – para saber sobre o que Messalina falava. Sextas-feiras não eram mais como costumavam ser.
- Aonde foi o Ventura? – perguntei depois de afastar os dedos da mulher do meu peito. Ela ronronou alguma coisa e tentou desabotoar a camisa branca de linho que eu usava. – Para onde aquele moleque que veio comigo foi, Messalina?
Ela saiu da cama com um pulo. Seu sorriso de momentos anteriores desapareceu e deu lugar à sua comum falta de paciência.
- Saiu, Juan. – falou enquanto tateava a bagunça de potes e brincos sobre a penteadeira. – Por acaso era ele o dono do dinheiro? Porque você não sai daqui sem pagar.
Sentei e busquei calçar os sapatos. Messalina achou o isqueiro que procurava.
- Eu tenho que achar o Ventura. Ele desceu?
- Você não vai sair daqui sem pagar, Juan. – falou isso e caminhou rebolosa para ficar entre a porta e a cama.
- Eu preciso encontrar o Ventura. – retirar toda embriaguez de minha voz e transformá-la em seriedade foi o que tentei fazer, mas não sei se fui efetivo.
Messalina acendeu e apagou o isqueiro algumas vezes. Não olhava para mim. Parecia entretida com a brincadeira. A cicatriz na barriga – fruto de uma extração de apêndice – era a marca registrada de sua nudez. Os cachos ruivos combinavam com o salto-alto vermelho. Ela apoiava o peso do corpo na perna direita enquanto a mão esquerda pousava em sua cintura. A pose que ficou marcada em minhas retinas nasceria naquele instante.
- Vai se foder, Juan. – ela falou com um misto de prazer e raiva. Sua mão esquerda saiu da cintura para me oferecer o dedo médio. O isqueiro estava aceso na outra mão. Seus olhos verdes bruxuleavam. – Você não sai daqui sem pagar de novo.
setembro 24th, 2010 § 2 comments § permalink
Mesmo de banho tomado as roupas sujas não caem bem. A sensação mais exata é a de estar fedendo. Amigos não falam que você está fedendo. Ou falam? A dúvida persiste. É quase uma certeza, mas 42 certezas pela metade não valem uma inteira. A dúvida persiste. Assim como o calor. E os diálogos não funcionam. Aposta estúpida e empolgação mais estúpida ainda. Pandeiro e puerilidade não me apetecem, aliás, oras, pouca coisa me agrada. O calor e a dúvida persistem. O cara vai ao banheiro e eu viro as costas para o que não me interessa. Nada vem pela frente. Estou sozinho e possivelmente cheirando mal. Mais amigos, de repente. E o flerte? Fraco como meus bíceps. E continua. Como o calor e a dúvida. E, de repente, nenhum amigo. E nem é flerte. É só o trivial e passageiro dissenso entre instâncias que, no geral, não se cruzam. Aí o diálogo mais longo e que não funciona como qualquer outro. Uma mentira ali, outra ali. Mentiras brancas, oras. Averiguações. Apenas averiguações. Final abrupto e notas mentais para a posteridade. E o calor. Só o calor, porque seria impossível (seria?) estar fedendo. Mas o compromisso, ah, o compromisso. Com roupas limpas e passadas. Perfume. Mas, no entanto, todavia a calça tem mais centímetros do que a metade do meu corpo. Que se dane. Compromisso, ah, o compromisso. E eu não tenho fome, mas jogo na boca mesmo assim. Da cabeceira vejo cópias de cópias. E muito pó. É só o que vejo. Mais diálogos disfuncionais. Promessas e desentendimentos velados. Quero ir embora, mas o compromisso, ah, o compromisso. Empurrões no meio da rua e “isso pode ser melhor para você” ao ouvido. Música ruim no caminho e música ruim na cabeça pelo resto do tempo. Mentira. Só no caminho. Creio que depois da traição também. Finjo que acho ruim, mas na verdade só não sei o que fazer com meu desajuste. Eu quero ir embora para uma casa que não seja a minha. Só ir embora. Aí as luzes, o calor, o suor, as brigas, as declarações, a traição, as luzes, o calor, o suor e o demônio. Ah, claro. E as pretensões dos outros. Não compactuo. Nem hoje e nem nunca. Fico mais tranqüilo, mas remoendo. Remoer é uma merda. Deve ser por aí. Pouco antes ou pouco depois. Talvez quando o demônio aparece. Talvez aconteça por todo o tempo que o demônio permanece e eu remoo. E eu não me dou conta. Não consigo nem imaginar como é. Tenho ânsias de vômito ao tentar. Mas deve ser por aí que acontece. Remoer é uma grande merda. Afinal o compromisso, ah, o compromisso. Porta batida, placa anotada e moeda imaginária lançada. “Vou decidir nos próximos 42 segundos”. Sou óbvio, mas só para mim. E a pretensão morre como eu quero. Mais diálogos quebrados; engraçados, mas quebrados. O urbano, o hidrante e as toneladas. Ótimo nome para um livro, penso. Ele é o urbano, eu sou o hidrante e o outro é uma das toneladas a 100 quilômetros por hora. Perigoso como os beijos que o demônio dá. Não, não. Perigoso como a simples presença do demônio. E então eu vejo os rastros, porque se Deus é um comediante, o demônio é um oncologista deixando pistas. Ah, os rastros. Tão sutis. Ah, os amigos. O aperto de mão é o selo da coisa. O selo do demônio de veludo. Eu só não me dou conta, mas já aconteceu. O asfalto come a barra da calça. Música boa na volta, na cama e solidão. Uma solidão que sorri enquanto adormeço. A vida é uma dor de estômago.
* * *
Crianças Fantásticas. É uma obra ruim apesar das boas críticas. Ele gastou o dia. Gastou cada hora acordado com uma coisa ruim. E sabe por quê? Porque ele é assim. Ele inicia algo e, por pior que a coisa seja, sempre acredita que ela pode melhorar. É frustrante na maioria das vezes, mas é assim. Ele é assim. Talvez pelo prazer da libertação que há nas poucas vezes que se liberta, não sei. Talvez seja seu defeito, não sei. Porque todos temos um defeito que é só nosso, aquele que avacalha só com a nossa vida. Os piores defeitos são esses. Talvez seja o seu defeito. E ao final do dia, mesmo que, é bem verdade, em outros momentos tenha tentado, degustou de forma plena uma dessas suas últimas libertações. Fruto do defeito, talvez. Ele simplesmente não sabia o que fazer com aquilo.
* * *
- Não – diz.
- Ok – diz a outra voz.
* * *
O otimismo nas mãos de um pessimista é das coisas mais peculiares que existem. Ele ri, ele joga, ele exagera. O otimismo nas mãos de um pessimista é a prova cabal de que ele está tendo um surto. É o indício puro de sua loucura. É a dança do demônio. A única coisa que podemos fazer é esperar passar. Quando tudo é festa para ele, quando tudo é erroneamente bom, tudo o que podemos fazer é esperar passar. Pois passa. Ah, passa.
- Se você quiser eu te levo – disse F. com grande empolgação.
Por alguns segundos o amigo de F. ponderou e olhou o sol que sumia entre os prédios.
- Não, obrigado – respondeu -, eu não tenho dinheiro.
Mentira daquelas que as pessoas não acreditam e relevam. Agora só uma coisa importava já que a lucidez estava de volta: era preciso fazer acontecer, pois pessimistas crêem no acaso e não na sorte.
* * *
A véspera da véspera
do equinócio de Setembro
há de ser, ouça bem,
o dia mais cinza,
sem cor
e sem flor que você,
pequeno ousado,
ousará viver.
* * *
Fui inventivo, fui péssimo, mas aceitei. Fui agradável, todo sorrisos, mas menti. Fui confiante, fui mau, mas funcionou. Até onde sei, pelo menos. Fui solidário, inteligente, mas errei. Fui prepotente, fui arrogante, mas não funcionou. Fui simpático, quase implorei, mas não funcionou. Acho que o demônio, o oncologista, só estava apontando para o tumor que eu mesmo criei. E dormi cedo. E levei um tiro no pescoço em mais um desses sonhos em que levo tiros e sinto a dor. Caí, mas não sei se morri. Acordei e não mais dormi.
* * *
Há algum tempo me senti anormal e imaginei que nunca descobriria a verdade.
Então, hoje, algo bateu à porta. Algo sem rosto ou contorno. Debulhei amêndoas abaixo do plexo solar e fiquei sem ação. Sei que foi muito, mas muito rápido, só que esse algo, sem rosto ou contorno, não quis esperar. Quando abri a porta não avistei nada. Foi ruim.
O nome seria Procura-se Clarice. E eu só tinha o título e a dedicatória.