Procura-se Clarice
- Eu sempre tive medo de reticências – diz, pegando um dos pedaços de madeira que o tio largou para trás. - Medo de não saber usá-las. Medo de não entender o que elas significam.
- Eu é que não estou entendendo – responde o amigo. – Do que diabos você está falando?
- Reticências – diz com calma, enquanto desfaz o pequeno pedaço de madeira entre os dedos.
- Você é muito assim. Olhe em volta. O mundo está caindo e reticências são as suas únicas preocupações – e procura os cigarros no bolso. – Há merdas maiores acontecendo em sua vida, em nossas vidas, aliás, do que medos imbecis. Do que qualquer coisa que seu tio possa ter enfiado na cabeça – e os cigarros caem no chão.
- Eu sei, eu sei – fala com a mesma calma. – Mas não é incômodo?
- O quê? – pergunta enquanto se abaixa para pegar os dois cigarros amassados. – Cadê o isqueiro?
- Em seu bolso de trás. Ou o tio levou.
- Merda – e apalpa todos os bolsos com impaciência. – O que é incômodo?
- Tudo o que fica inacabado. Todas as idéias, todos os planos, todos os… – e pára para olhar as folhas batendo na janela.
- É. Isso foi uma idéia inacabada e realmente – frisa – está me incomodando. Cara. Vamos atrás do seu tio. Eu preciso do meu isqueiro – fala e começa a caminhar para fora da garagem.
***
- Eu nunca pensei que bagunçaria com tudo – diz depois de alguns minutos de caminhada em silêncio enquanto o amigo, nervoso, finge que traga o cigarro apagado.
- A culpa foi sua. Agora nós vamos ter que agüentar a trombada, não é? Seja lá qual for o tamanho do caminhão. E que merda é essa de reticências? – pergunta nervoso.
- Não quero justificar nada, você sabe. Não há como justificar. E nem seria com você que eu teria a obrigação de justificar alguma coisa. Só quero que essas cordas em meu estômago parem de girar – e coloca a mão na barriga. – Só quero que as pessoas entendam o que nós fizemos.
- Cara – repentinamente pára de andar. – Nem eu entendo. Há como entender?
- Não – responde, parando também de caminhar. – Mas se houvesse a chance, com certeza eu…
- Chance!? – interrompe. – Que chance? Nós estamos muito ferrados, cara. E você vem me falar de reticências e de chance? – e recomeça a andar mais depressa.
- Meu tio falou que tudo ficaria bem se ficássemos na garagem – e corre para alcançar o amigo.
- Aquele maldito levou meu isqueiro. E eu não sei o que ele te disse, mas parece que enfiou muita minhoca na sua cabeça. Nós vamos passar pela loja bem rápido e só pegamos o meu isqueiro. Eu não estou mais ligando para muita coisa. Se for para acontecer na rua, na loja ou na garagem, que aconteça!
- É como eu estava te falando – tenta parecer calmo como antes. - Se pudermos explicar o que aconteceu tudo ficará bem. Para ser honesto, acho que meu tio tem razão. A garagem é mais segura. Seria muita burrice acabarmos mal por conta de um isqueiro.
- Se seu tio não tivesse levado o isqueiro embora, se eu não fumasse, se você não fosse tão ridículo, se eu não estivesse com tanta vontade de esmurrar seu corpo inteiro, tudo ficaria bem! – explode.
- Você disse alguma coisa sobre trombadas e caminhões há alguns minutos e que não tem nada a ver com o que você está falando agora – diz com pesar na voz.
- Mais um bom motivo para você parar de reclamar e buscar o isqueiro comigo. Já não estou falando coisa com coisa de tanto nervosismo. Eu preciso de um cigarro, cara. Nós já estamos ferrados.
***
- Quem é? – pergunta mulher sem olhar para a porta de vidro.
- Sou eu! – grita. – Vim entregar a madeira e conversar com seu marido.
- Ah… – e olha com desprezo. – Ele não está aqui. Pode deixar o que veio entregar aí na calçada mesmo.
- A senhora tem certeza? Não seria mais seguro colocar atrás do balcão? – insiste o homem que esboça um sorriso amarelo.
- Ele não me passou nenhuma instrução sobre madeira ou qualquer coisa.
- Eu acredito que seria o melhor a ser fazer, senhora. Colocar atrás do balcão. Além do mais, eu realmente preciso conversar com o seu marido.
- Não creio que nós temos algo para conversar – diz ríspida e agora olhando diretamente para o homem. – O que aconteceu ontem já diz muito por si só.
- Eu compreendo que a senhora esteja alarmada. Entendo a raiva do seu marido. Ele me ligou hoje cedo, aliás. Pode confiar que ele sabia da entrega e da conversa – e passa a mão na testa para enxugar o suor. – Por favor, senhora. Está um sol de rachar aqui fora.
- Vocês bem que podiam morrer queimados – sussurra enquanto levanta da cadeira para abrir a porta da loja. – Tudo bem. Entre. Pode colocar a madeira ali atrás. Vou pegar um copo d’água para o senhor.
- Agradeço – enquanto faz uma reverência estranha. – Descarrego a entrega em um minuto.
***
- Qual é o endereço dessa loja? – pergunta ainda nervoso.
- Logo ali na esquina. Olha a caminhonete do tio – e aponta para o automóvel vermelho estacionado e carregado com madeira. – Ele deve estar lá tentando fazer o que nós deveríamos estar fazendo.
- Nós? Nós é o cacete! – explode mais uma vez. – A culpa foi sua! A culpa foi sua! Se você me escutasse e seguisse o que eu falei direitinho, nada teria dado errado.
- Vai mais devagar – pede com o máximo de persuasão possível. – Vamos esperar e ver quem está lá com o tio.
- Não seja covarde logo agora. Você falou que odeia reticências! Essa é uma puta reticência. Ou você resolve logo ou vai se odiar pelo resto da vida. Ou pelo menos até a hora que forem nos prender – fala de maneira mordaz.
- Eles não vão nos prender por causa disso. Pára com esse papo.
- Cara – pára novamente de andar, para alívio momentâneo do amigo. – Nós arrombamos a casa do homem mais babaca da cidade! Arrombamento é crime! Se eles nos denunciarem, e ao que tudo indica é o que farão, nós com certeza vamos ser presos. A mulher viu. Viu o seu rosto. Viu o meu rosto, merda! É claro que vamos ser presos!
- Se essa é a intenção deles, por que ainda estamos livres? – indaga com otimismo. Nós passamos a noite na garagem. Eles sabem onde eu moro. Se fossem denunciar, já teriam denunciado. Tenho certeza que eles estão à espera de uma explicação nossa.
- Explicação sua! Só sua! – interrompe novamente.
- Ok, ok – concorda. – Uma explicação minha e o porquê de você também estar envolvido nessa bagunça toda. Eu conheço o homem. Ele não é tão babaca quanto dizem.
- Merda. Merda! – pragueja. – Eu preciso muito de uma cigarro.
***
- Alô?
- Oi. Sou eu.
- Eu sei que é. Cadê você?
- Chegando em sua casa. Pegou as ferramentas?
- Peguei sim. É muito longe daqui?
- Não, não. Dá para ir a pé. Você sabe mesmo fazer isso?
- Na teoria. Já vi fazerem. A gente já conversou sobre isso, cara.
- Eu sei, mas não custa perguntar. Você está quase dando para trás.
- Se eu fosse desistir não seria seu amigo.
- Cara, valeu. Valeu mesmo.
- Só venha com agradecimentos quando conseguir fazer seja lá o que você está querendo fazer. E espero que não seja nada mais ilegal do que arrombar a casa de alguém.
- Não, não é. É só deixar uma coisinha lá. Ninguém vai perceber. É rápido. É importante, você sabe.
- Sei, sei. Você tem certeza que ninguém vai estar lá?
- Tenho. Último Domingo do mês. As noites são sempre na casa dos avós.
- Isso é com certeza absoluta, não é? Eu posso confiar, não é?
- Pode. Pode sim.
- Porque eu te deixo lá, cara! Eu te deixo lá e saio correndo como o demônio corre da cruz se alguma merda acontecer. Se você demorar mais do que dois minutos para sair, cara, eu juro pela minha mãe que eu saio correndo e te deixo lá.
- Muito justo, muito justo. Mas eu não vou demorar. Estou na sua porta. Abre aí.
- Não. Você está maluco? Meus pais não podem ver que estou saindo. Vou sair calado e voltar mudo.
- Ok. Ok. Estou te esperando.
***
- O seu marido demora? – pergunta o homem depois do último gole.
- Ele não falou nada. Mas pode deixar que ligo agora mesmo para avisar quem está aqui – e caminha em direção ao telefone do balcão.
- Tudo bem! Vamos resolver isso, com certeza! – fala animado. – Eu vou começar a descarregar a madeira.
***
- Oi, sou eu. O carpinteiro está aqui. Não. Não. Está só. – e olha para o homem que atravessa a porta com as grandes tábuas. – Ele está descarregando a madeira que você comprou semana passada. Isso. O quê? Não. Já falei que é só ele. Dá para você chegar aqui rápido? Quem? Você está brincando comigo. É claro que não é para trazer! O que teria para acrescentar? Vai que aqueles bandidos – e sussurra após uma pausa. – Vai que aqueles bandidos aparecem aqui também. Não custa! – e volta a falar no mesmo tom ríspido. – Sou contra! Completamente contra. O quê? Olha, faz o que você quiser. Eu sei o que eu vi e você viu o estado da porta. Eles prenderam o cachorro na despensa, meu Jesus! Venha para cá depressa! – e desliga o telefone com uma batida violenta.
***
- Vamos logo – fala já sentindo o cheiro da madeira em cima da caminhonete.
- Calma, vamos esperar o tio sair de novo.
- Minha calma acabou ontem, cara. Vamos – e puxa a última tábua. – Me ajuda aqui.
- Mas que merda… – e ajuda o amigo, já que não tem escolha.
- Vamos entrar e não importa o que aconteça lá dentro, você vai manter a calma e deixar só o seu tio falar, ok? – diz pausadamente. – Talvez assim tenhamos alguma chance de convencê-los a não chamar a polícia logo de cara. Aí tudo se resolve, eu pego meu isqueiro e voltamos para casa.
- Ok – e atravessam a porta carregando a tábua que agora pesava mais do que realmente pesava.
***
- É ali – diz mais baixo do que gostaria.
- O quê?
- É ali. Naquela casa com a árvore pequena na frente.
- Você não me falou que íamos pular um muro.
- Não vai ter problema. Eu já pulei.
- Eu estou carregando um bocado de coisas barulhentas aqui, oras!
- Eu pulo primeiro, aí você joga a caixa com as ferramentas. Depois você pula.
- Alguém pode escutar se essas coisas caírem no chão, cara.
- Não vão cair. Confia em mim. Vamos rápido.
- Como você pulou isso? – diz ao pararem perto do início do muro e da árvore pequena.
- Em algum lugar aqui tem como segurar. É perfeito para subir.
- Então anda logo e trepa nesse muro, caramba. Eu estou escutando carros na outra rua.
- Calma – e num movimento rápido sobe quase que a metade.
- Eu não vou conseguir fazer isso que você fez – diz enquanto vê o amigo pular para o outro lado.
- Vai. Joga! – diz muito baixo novamente.
- Merda. Cadê você? – pergunta assustado.
- Joga as ferramentas!
- Que merda! Não me assusta assim! – fala com indignação ao jogar as ferramentas com o máximo de cuidado possível.
- Peguei! Perfeito! Agora vem depressa!
- Merda, merda. Isso vai dar errado. – diz enquanto tenta imitar os movimentos anteriores do amigo.
***
- Eu não acredito que vocês têm a audácia de entrar em minha loja! – grita a mulher. – Eu vou ligar agora para a polícia! O tio de vocês tudo bem, coitado! Não tem culpa das estripulias dos dois, mas bandido aqui não entra!
- Ele não é meu tio. É só dele – diz enquanto coloca a tábua no chão com o amigo.
- Calma, minha senhora – clama o tio enxugando mais uma vez a testa ensopada com a palma da mão. – Eu falei para eles ficarem em casa enquanto eu resolvia tudo com o seu marido.
- Calma? Calma? Esses dois bandidos invadiram a minha casa! – berra a mulher no momento em que tira o telefone do gancho pela segunda vez desde que o carpinteiro chegou.
- Sei que o que eles fizeram foi muito, mas muito errado. Mas eu sei também que… o que é isso? – pergunta o tio ao sentir uma mão em seu bolso direito da calça.
- Meu isqueiro. Só vim aqui pegar o meu maldito isqueiro – diz ao alcançar o isqueiro e levá-lo em direção ao cigarro na boca.
- Cara – fala o amigo com dificuldade. – Você não está ajudando.
- Ajuda alguma nesse mundo vai ser suficiente para vocês – e direciona o olhar para o que acabara de falar. – Muito me impressiona você, logo você! Eu te recebi em minha casa! Quantas vezes? Eu nem sei! E é assim que você retribui? – e bate o telefone novamente com violência no gancho sem ter discado nada.
- Não, não – gagueja o rapaz. – Claro que não. Se a senhora deixar que eu explique…
- Cala a boca, merda! Deixa só o seu tio falar! – grita o amigo.
- Olha como fala aqui dentro da minha loja, moleque! – e avança para cima dos dois rapazes, sendo impedida pelo tio que suava em bicas.
- Minha senhora, fique calma! – clama novamente o tio.
- Meu marido está vindo! Eu quero ver o que vocês vão fazer! Eu quero ver!
- Merda – dizem os dois amigos, quase em uníssono.
***
- Pela porta dos fundos não vai dar. Vai pela porta da frente mesmo. É rápido.
- Como assim não vai dar?
- Tem uma parede muito alta para se chegar até os fundos. Eu sei que, se eu for pela porta da frente, o caminho dentro da casa é livre até o segundo andar.
- Cara. Tá. Tá. Vamos rápido. Espera! – e pára subitamente de andar pelo jardim escuro. – Que barulho é esse?
- Merda. É o cachorro! Está dentro da casa!
- Quem deixa um cachorro dentro de casa quando sai? Que merda! E você não falou nada sobre cachorros, cara!
- Eu não me lembrava de cachorro! É coisa recente! – começa a se desesperar.
- Ele é grande? É pequeno?
- É um filhote ainda, mas vai fazer muito barulho se nos encontrar!
- Mas que porcaria, cara. Vamos embora. Vamos embora agora!
- Agora não dá para voltar. Nós vamos nos arrepender se voltarmos agora – diz mais calmo. – Entramos e prendemos o cachorro na despensa. Lá ele não vai chamar a atenção dos vizinhos.
- Eu me arrepender depois? Eu já me arrependi desde a hora que pulei o muro e descobri que aqui tem um cachorro!
- Calma, calma – diz o amigo.
- Eu estou calmo. Você não me viu nervoso ainda. Passa as ferramentas então. – e acende um cigarro.
***
- Foram eles, Cláudio! – acusa a mulher ao ver o marido chegando. – Foram esses dois, eu te disse!
- Senhor Cláudio – diz o tio. – Eu não estou conseguindo com que a sua mulher mantenha a calma!
- Eu não vou ficar calma! – retruca a senhora. – Dois bandidos invadem a minha casa, entram em minha loja horas depois e eu tenho que manter a calma? Eu não sei o que foram fazer lá, mas com certeza esse aí já estava de olho em alguma coisa há tempos! Aproveitou que saímos para poder entrar e roubar! Ladrão! Judas!
- Minha senhora – diz o tio. – Há uma explicação para tudo isso. Senhor Cláudio…
- Hum – resmunga Cláudio.
- Merda, merda – fala para si mesmo o rapaz com o cigarro na boca
- Cláudio, senhor… – tenta iniciar o outro rapaz.
***
- Cadê você, cadê você? Eu falei que ia sair correndo. – e anda de um lado para o outro perto da porta da despensa. – Maldito. Que merda de embrulho era aquele? Olha as horas! Olha essa porcaria de cachorro latindo… – e vira-se rapidamente ao escutar o ranger do portão. – Merda!
- Deu merda, deu merda. Vamos embora! – grita o amigo que descera as escadas logo que o carro entrou na casa.
- Como a vamos sair daqui? Olha a zona que deixamos! Você falou que eles não voltariam tão cedo! – e tenta juntar as ferramentas que estão no chão junto com a maçaneta da porta.
- Cara! Larga isso! Vamos sair antes que eles dêem a volta! – e corre em direção à porta que está escancarada e completamente visível pela luz que é acessa no jardim.
- Por aí não! Por aí não, merda! Vamos nos esconder! – tenta impedir sem sucesso o amigo que saíra correndo para o jardim.
- O que é isso? – grita de horror uma mulher. – O que você está fazendo aqui? Eu vou chamar a polícia!
- Me desculpe, dona Alexandra! Eu, eu… – gagueja o garoto que ainda se dirige para o muro.
- Pula, pula logo! – grita o outro que passa correndo e quase derruba a mulher.
- Meu Deus! O que é isso? – berra transtornada. – Eu sei quem vocês são! Eu vou ligar para o Cláudio e para a Clarice! Bandidos! Ladrões!
- Merda! Corre, cara! Corre! Vamos para casa do seu tio – fala com apreensão o rapaz que pulou por último. – Nós estamos perdidos!
***
- Tio, tio! – bate na porta um garoto que arfa.
- O que foi? O que aconteceu? – responde uma voz fraca e sonolenta do lado de dentro.
- Nós fizemos uma coisa muito, mas muito estúpida – fala com ar de confissão um dos rapazes.
- O que foi, meu filho? – abre a porta o homem que há pouco dormia. – O que aconteceu?
- Nós acabamos de arrombar a casa da Clarice e a madrasta nos pegou – responde o amigo que acende o quinto cigarro em menos de meia hora. – Nós estamos ferrados.
***
- Cláudio, senhor… – tenta iniciar o rapaz.
- Explique-se – diz Cláudio, o pai de Clarice, de forma calma e inesperada para todos.
- Senhor Cláudio… – começa a dizer o tio.
- Sebastião, por favor – fala com autoridade um Cláudio sereno e decidido. – Deixe que o rapaz diga o que quer dizer. Eu vim aqui para conversar com você, mas já que o rapaz está aqui e quer falar, deixe que ele mesmo fale.
- Você ainda quer escutar o que esse ladrão vai inventar? – pergunta indignada Alexandra. – Diga para ele como Clarice ficou quando você contou a ela do ocorrido, Cláudio! Vamos! Diga!
- Alexandra, por favor. Busque sua enteada no carro – diz Cláudio. – Acho que ela vai querer escutar o que o garoto tem a dizer.
- Como!? – fica sem entender a mulher.
- Por favor, Alexandra – reforça o pai da moça.
- Mas que merda é essa… – pensa o amigo com seu cigarro enquanto vê a mulher sair aturdida pela porta de vidro.
- Vamos. Explique-se – repete Cláudio.
- Bem, senhor. Não roubei nada, senhor. Mas peço desculpas por mim e por meu amigo pelo estrago que causamos e pelo transtorno – diz de forma trêmula, mas sem gaguejar. – Eu sempre tive medo de reticências, senhor – começa a dizer sem reparar que Clarice entra na loja, carregando um livro que encontrara em seu quarto pela manhã. – E isso tudo, tudo o que eu estava vivendo, era uma imensa reticência.
- Uma grande o quê? – indaga-se em pensamento a madrasta de Clarice que vem logo atrás da moça.
- Uma grande reticência, senhor – continua a falar com confiança, olhando agora para os olhos da garota que atravessa a loja e pára ao lado do tio e do amigo. – Ontem eu faria um ano de namoro com sua filha se eu não fosse uma pessoa tão orgulhosa e idiota. Um ano, senhor, você sabe. Então eu quis, de qualquer modo, entregar uma coisa que prometi a ela há muito tempo e cumprir outra promessa, não tão velha assim, de procurar Clarice quando meu orgulho e minha idiotice chegassem ao fim. Pois bem – fala ainda mais confiante ao ver o livro nas mãos da garota. – Não quero uma reticência dessas. Não sei usá-la. Não sei. Minha idiotice chegou ao fim. Encontrei a Clarice que havia perdido.